Formas de navegar
Uma viagem para sul. Dois dias e meio de alcatrão até chegar ao mar, depois uma manhã num campo de dunas onde mapa nenhum conhece estrada nenhuma, e ao fim da tarde alcatrão outra vez até à porta do hotel. Três maneiras completamente diferentes de seres guiado. Um plano só.
A app nunca te pergunta em que modo estás. Faz-te uma pergunta só: agora, andas agarrado a quê?
Às estradas
O caso normal. Isto sabe fazer toda a gente: caminhos cartografados, indicações de viragem, recálculo quando viras onde não devias. O que interessa vem na pergunta seguinte — quais estradas.
Schnell — a ida. Autoestrada à vontade, porque as curvas só começam trezentos quilómetros mais à frente e até lá não estás a perder nada.
Tourer — aquilo para que compraste a mota. Autoestrada só quando não há outra maneira. De resto, o traçado que faria quem é da terra.
Adventure — leva caminhos agrícolas, estradões florestais e gravilha quando são a melhor ligação, e planeia mais devagar porque tu também vais mais devagar. Já agora: é exatamente isto que o resto do mercado chama «off-road» — terra batida, mas em cima do mapa.
Adventure Light — o mesmo, com a mão mais leve na gravilha. O «Light» é a mão, não a versão: para pneus 80/20 em vez de 50/50. Ou para medricas. Não julgamos ninguém — também andamos de GS.
A nada — NoRoad
Há sítios onde não é a estrada que acaba: é a alçada do mapa. Deserto. Estepe. Leito de ribeiro seco. Um campo de dunas que para a semana está diferente.
O NoRoad não calcula rota nenhuma, porque não há nada para calcular. Pões pontos e recebes rumo e distância. Sem indicações de viragem, sem encaixar numa linha que não existe. Um ponto conta como alcançado quando chegas a cem metros dele — é o valor de fábrica, e podes mudá-lo à vontade.
E não, isto não é off-road. Off-road é o que os outros dizem quando querem dizer caminhos de gravilha que estão no mapa. Isso, aqui, chama-se perfil Adventure, com rota perfeitamente normal. O NoRoad é o caso que vem a seguir: estrada nenhuma, opinião nenhuma, só tu e um rumo.
A maior parte dos motociclistas nunca precisa disto. Quem precisa já soube, à segunda frase, porque é que está aqui a ler.
À tua própria linha
Tens um GPX. De um fórum, de um amigo, de dez anos a juntar voltas.
«Abrir com o MotoNavigator», e antes de escrever o que quer que seja a app mostra-te uma lista: o que está no ficheiro, em que se vai transformar, em que pasta vai parar. O que no ficheiro é track fica trilho, o que é route fica rota, o que é waypoint fica local. Num trilho com pontos a mais, pergunta exatamente uma coisa: se o queres inteiro ou reduzido aos pontos que dizem alguma coisa.
Depois andas nela, e é aqui que a coisa fica interessante. Um trilho de outra pessoa não é a mesma coisa que uma rota planeada: não há ponto de passagem seguinte. Há a linha, e mais nada.
Por isso, quando sais dela — obras, café, placa mal lida — não acontece aquilo a que estás habituado. Nada de rota nova. Nada de «faça inversão de marcha assim que possível». O que recebes é o caminho de volta à tua linha, e para a frente: para um ponto que está adiante de ti, não para o sítio onde saíste. Quem já foi mandado por um GPS vinte quilómetros para trás, pela estrada que tinha acabado de fazer, sabe que é aqui que está a diferença toda.
A costura
Agora a parte para a qual ninguém no mercado tem nome.
Põe os três troços como entradas numa pasta do separador Projects: a
ida, o campo de dunas, o regresso. A ordem faz-se a arrastar. Depois
Folder settings… uma vez e Auto-advance ligado.
E pronto. No fim da ida não acaba a viagem, acaba o troço. O seguinte carrega-se sozinho e a coisa continua. Sem diálogo, sem pergunta, sem «deseja continuar?». Paras na bomba porque queres atestar, não porque o software tem uma dúvida.
Cada troço traz a sua própria maneira. A ida como Tourer. O campo de dunas como NoRoad. O regresso como Adventure. Até um trilho de outra pessoa pode ser um elo — e se, na passagem, não houver maneira de o encaixar nas estradas, é guiado como NoRoad. Ficas a saber, em vez de dares por isso.
E as variantes. Em casa raramente se planeia uma rota. Planeiam-se três. A bonita, a que sobe à portela. A curta, para quando ao quarto dia o rabo tiver opinião diferente da cabeça. A do vale, porque a previsão a partir de quinta ou mente ou não mente.
As três ficam na mesma pasta. De serviço está sempre só uma — as outras
ficam em Disable, e a cadeia passa-lhes ao lado. Não apagadas, só
encostadas. À noite no hotel, fino ao lado, radar de chuva em cima da
mesa: uma sai, outra entra. De manhã a app guia-te pela que escolheste, e
guarda as outras para depois de amanhã.
Duas coisas a app não faz, e não faz de propósito. Nunca te muda a ordem. E não deixa nada de fora: se o troço seguinte começa dois quilómetros mais à frente, diz-te o número e carrega-o à mesma. A pasta montaste-a tu, não foi ela.
E a partilha
O GPX sabe fazer percursos. Não sabe fazer arrumação.
Quem envia uma coleção — vários troços, trilhos e rotas à mistura, uma
ordem que quer dizer alguma coisa — envia-a em .mnav. Aí viaja a pasta
inteira: estrutura, ordem, qual das variantes está encostada, e até o
interruptor Auto-advance. Quem recebe não tem nada para arrumar: ou
anda, ou decide ali no sítio qual das variantes já planeadas entra ao
serviço.
O GPX acerta exatamente num caso: uma pasta onde não há mais nada além de trilhos, tudo ao mesmo nível, sem nada guardado duas vezes. Essa chega como foi enviada. Tudo acima disso desfaz-se pelo caminho — não por o GPX ser mau, mas porque a partir daí já não há campo nenhum onde essa arrumação possa assentar.